
Bancada do Cocar
Com o cocar erguido, transformamos o amanhã!
Nós, da Anmiga, ecoamos o som dos nossos maracás para anunciar o nascimento da Bancada do Cocar, em 2021.
Fincamos os pés firmes na terra, erguemos a cabeça com o olhar voltado ao horizonte, conscientes de que não basta ocupar os espaços de poder, precisamos transformar essas estruturas.
Esses espaços não foram criados para nós, e é por isso que decidimos nos organizar, para demarcar a política com nossos corpos territórios.
Nossa Bancada não começou do nada
Antes de nós, vieram muitas mulheres, nossas parteiras de caminhos, que nos ensinaram que política também se faz com cuidado, com firmeza, com palavras que brotam do chão.
A Bancada do Cocar representa mais um passo na longa marcha das indígenas mulheres no Brasil.
Nasceu da pulsação das nossas marchas, das nossas assembleias, da Caravana das Originárias da Terra que percorreu os seis biomas escutando os cantos e clamores de cada território.
Floresceu como resposta: ocupar os espaços onde sempre decidiram por nós, mas nunca com a nossa participação.
Não estamos pedindo espaço, estamos abrindo caminho!
Nossas vozes, que ecoam do chão dos territórios, precisam vibrar também nos parlamentos, nas prefeituras, nos conselhos, nos ministérios, no judiciário, na presidência do país.
Construímos a Bancada do Cocar para que as decisões sobre o futuro do Brasil passem pelas mãos, palavras e saberes das primeiras filhas dessa terra. Para que nenhum projeto de país seja feito sem o rosto e a alma dos nossos povos.
Seguimos em marcha, fortalecendo candidaturas, criando redes, construindo um Brasil a partir de suas raízes e que respeita as guardiãs da ancestralidade.

Antes do Brasil da coroa existe o Brasil do Cocar
A Bancada do Cocar não nasceu em gabinete, nasceu em marcha!
Cada passo nas avenidas de Brasília, cada canto ecoado nos seis biomas, cada reunião em roda fez parte do nascimento da nossa Bancada. Nós, da Anmiga, plantamos essa semente na terra fértil dos nossos ancestrais.
A história da Bancada do Cocar começa muito antes do seu nome ser dito. Começa na coragem das nossas ancestrais, daquelas que plantaram cura e luta por justiça. Vem das lutas travadas dentro dos territórios, das assembleias de base, dos conselhos de saúde, das reuniões comunitárias. Vem das lideranças que, por gerações, defenderam suas aldeias e biomas sem nunca serem vistas como parte do “poder”.
Foi nesse espírito que, em 2021, no calor da nossa segunda Marcha construímos a Bancada do Cocar.
No ano seguinte nossa proposta se fortaleceu com as nossas caminhadas por diversos territórios na Caravana das Originárias da Terra. Uma articulação que ultrapassa as estratégias eleitorais e conecta o espiritual como orientação coletiva para fazer com que indígenas mulheres decidam o futuro do Brasil.
Em 2022, a Bancada do Cocar se apresentou ao país nas urnas.
Foram lançadas candidaturas em todos os cantos.
O número de indígenas mulheres candidatas cresceu 193% em relação a 2014
Indígenas mulheres que se lançaram na política partidária apresentaram candidaturas em 26 dos 27 estados brasileiros e no Distrito Federal
Foi um movimento enraizado, com vozes que brotaram da floresta, do cerrado, das aldeias urbanas, das periferias.
E fizemos história!
Ocupamos o Congresso Nacional com cocar na cabeça e as vozes dos territórios na garganta e fortalecemos a luta do movimento indígena para tirar o governo genocida de Bolsonaro do poder.

Em 2024, a presença das mulheres na eleição se intensificou
Dos mais de 2.500 indígenas que concorreram às eleições municipais, 887 eram mulheres.
36 foram eleitas vereadoras, 1 como prefeita e 4 como vice-prefeitas.
A Bancada do Cocar cresceu, floresceu e se espalhou como raiz que sustenta o todo.
Bases de luta | do chão da aldeia às urnas do país
1969
1976
1982
1990
2014
2017
2018
2020
2021
2022
2024
Aldear a Política
Desde 2014, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começou a registrar a informação de povos indígenas nas candidaturas, vêm surgindo informações que antes eram invisíveis às nossas lutas. Esses dados são reflexo da presença crescente das indígenas mulheres na disputa pela política institucional.
O avanço das indígenas mulheres supera, proporcionalmente, o crescimento das candidaturas dos indígenas homens, consolidando a força desse movimento.
Eleições Gerais
deputadas estaduais e federais – senadoras – presidência
| ANO | CANDIDATAS | CRESCIMENTO | RESULTADOS |
|---|---|---|---|
| 2014 | 29 | - | Início do registro formal com dados de povos em eleições municipais. |
| 2018 | 85 | +193% | Joenia Wapichana, eleita primeira deputada federal indígena mulher. Sonia Guajajara disputa a vice-presidência. |
| 2022 | 441 | +418% | Três deputadas indígenas são eleitas: Sonia Guajajara, Célia Xakriabá e Juliana Cardoso. Raquel Tremembé disputa a Presidência como candidata a vice. |
O salto entre 2018 e 2022 é o maior da série, refletindo diretamente o fortalecimento da organização política das indígenas mulheres e do movimento nacional.
Eleições Municipais
vereadoras – prefeitas – vice prefeitas
| ANO | CANDIDATAS | CRESCIMENTO | RESULTADOS |
|---|---|---|---|
| 2016 | 192 | - | 19 vereadoras eleitas. |
| 2020 | 265 | +38% | 31 indígenas mulheres eleitas: 1 prefeita, 2 vice-prefeitas e 28 vereadoras. |
| 2024 | 887 | +234% | 41 indígenas mulheres eleitas: 36 vereadoras, 1 prefeita e 4 vice-prefeitas. |
O salto entre 2020 e 2024 representa o maior crescimento da história das indígenas mulheres nas eleições municipais. É um reflexo direto da construção da Bancada do Cocar, da Anmiga e da Campanha Indígena Nacional.
Enfrentamento do machismo e da violência política
O caminho até aqui nunca foi plano para nós, indígenas mulheres. Se hoje somos presença viva nas urnas e nos parlamentos, é porque rompemos não só as cercas do colonialismo, mas também as cercas do patriarcado que tentam, até hoje, manter nossos corpos e nossas vozes longe dos espaços de decisão. A política institucional carrega em sua estrutura um machismo que atravessa não apenas os partidos, mas também as relações comunitárias e o próprio sistema eleitoral. E isso fica evidente quando olhamos para os números: enquanto os homens indígenas têm uma taxa média de 13,5% de sucesso nas urnas, nós, indígenas mulheres, ainda enfrentamos a dureza de sermos apenas 4,5% das eleitas. A disputa desigual não está só na urna, ela começa na dificuldade de acessar recursos, espaços de visibilidade, tempo de campanha e apoio partidário.
Ainda assim, seguimos rompendo. Porque se o machismo estrutural da política tenta nos empurrar para as margens, a força que nos move vem de outra fonte: do ventre da terra, das nossas ancestrais, dos nossos cantos, dos nossos territórios. O nosso caminho, das indígenas mulheres, começa a ser registrado oficialmente apenas em 2014, quando o TSE passou a contabilizar nossa existência. Desde então, dobramos, triplicamos e seguimos crescendo. E se os dados ainda revelam uma representação pequena, eles também gritam uma verdade maior: nenhum projeto de país será justo se não carregar o rosto, a palavra e o tempo das indígenas mulheres.
Nossa mobilização nas urnas
As indígenas mulheres avançaram proporcionalmente mais nas eleições municipais entre 2020 e 2024 (+234%) do que nas eleições gerais entre 2018 e 2022 (+418%, sobre uma base maior).
O dado mais forte das eleições gerais foi em 2022, quando pela primeira vez três indígenas mulheres ocuparam cadeiras no Congresso Nacional, enquanto nas eleições municipais o marco mais forte veio em 2024, com o recorde de 887 candidaturas e a eleição de 41 mulheres.
Até 2014, não temos registros de uma indígena mulher eleita. A virada histórica veio em 2018, com Joenia Wapichana rompendo o silêncio de séculos no Congresso.
O crescimento se dá em todas as regiões do Brasil, com forte presença na Amazônia Legal, Nordeste e Sudeste.
A criação do Ministério dos Povos Indígenas e também de secretarias estaduais dos povos indígenas (como no Ceará, Amapá e Pará) também reflete esse processo de ocupação institucional para além das urnas.
A organização coletiva, as Marchas das Mulheres Indígenas, a Caravana das Originárias e a criação da Bancada do Cocar são elementos centrais para esse avanço.
Os dados não são apenas números, eles são marcas da presença, da resistência e da força das indígenas mulheres na política brasileira. São corpos-territórios rompendo com estruturas coloniais, patriarcais e racistas que historicamente nos mantiveram fora das decisões.



