
Nossa Marcha
Ritual dos corpos território em movimento
As Marchas das Mulheres Indígenas são sementes lançadas na terra fértil da ancestralidade, florescidas da nossa força coletiva, de indígenas mulheres que, desde o chão da aldeia, movemos o mundo com nossos cantos, nossos corpos e nossos sonhos. Desde 2019, temos mobilizado esse espaço de denúncia, encontro e força ancestral, conectando biomas e territórios na defesa da vida e dos saberes originários.
Realizadas a cada dois anos, as marchas têm um significado que vai além da mobilização. Para nós, são rituais políticos e espirituais, tecidos nos encontros dos corpos-territórios das indígenas mulheres, que se afirmam em movimento, costurando alianças e apontando caminhos para a cura da terra.
Foi na 1ª Marcha, em 2019, que se fez história. Com a presença de 2.500 indígenas mulheres de mais de 130 povos, esse levante ancestral encontrou, em Brasília, a força das trabalhadoras rurais na Marcha das Margaridas, que reunia cerca de 100 mil mulheres. O chão da capital federal foi atravessado por vozes de luta e resistência, costurando alianças entre floresta, campo e cerrado. Foi ali que começou a germinar a articulação nacional que viria a se tornar a Anmiga.
No ano seguinte, em 2020, diante do avanço da pandemia e do isolamento forçado, as indígenas mulheres não silenciaram. O grito ecoou no território digital: foram organizadas mobilizações online, lives e escutas com lideranças de todos os biomas. A dor coletiva da pandemia, que atingiu com força os povos indígenas, tornou-se também espaço de elaboração política e fortalecimento da escuta ancestral.
E foi no mês de março de 2021, mês das mulheres e marco de resistência, que nasceu a nossa Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). Como afirmamos no nosso manifesto, “as originárias da terra, que estiveram nas primeiras marchas, agora se conectam de forma mais orgânica para seguir em luta, pelo bem viver dos nossos povos e pela cura do planeta”.
Desde então, as marchas seguem como um pulsar contínuo das lutas: espaços de formação e de formulação política. Marchar é seguir tecendo redes vivas, onde cada passo é feito para semear semente. Uma convocação viva. Um chamado para fortalecer a luta pela mãe Terra, que é a mãe de todas as lutas.

Território: Nosso corpo, nosso espírito
A Marcha das Indígenas Mulheres é um território de afirmação política, onde nossas vozes ancestrais se projetam do presente para o futuro, com a sabedoria das que vieram antes. Marchar é um ato coletivo de resistência e existência. Uma ação que fortalece a representatividade das indígenas mulheres em todos os espaços de decisão, do chão da aldeia às instâncias de poder institucional.
Ao reunir milhares de mulheres de todos os biomas, a Marcha constrói pontes entre os territórios, promove a escuta entre gerações e forma lideranças comprometidas com o bem viver. É nesse encontro que se desenham estratégias de incidência política, como a criação da Bancada do Cocar para o fortalecimento de candidaturas indígenas e o protagonismo das indígenas mulheres nas conferências nacionais e internacionais.
A Marcha também denuncia e enfrenta as múltiplas formas de violência que atravessam os corpos-territórios das indígenas mulheres: o racismo, o patriarcado, a violência institucional, a violência de gênero e a violência ambiental. Ao colocar essas pautas no centro do debate público, a Marcha exige políticas públicas que acolham, protejam e respeitem os saberes, as culturas e a autonomia das indígenas mulheres.
Na caminhada coletiva da Marcha, cada passo é um enfrentamento e uma proposição. É uma forma de dizer que não existe democracia plena sem a presença viva, autônoma e potente das indígenas mulheres.
Marchar também cura!

Corpo Território em movimento
Nossa mobilização pela cura da terra
2019
1ª Marchas das Indígenas Mulheres
Brasília, 9 a 13 de agosto
Território: nosso corpo, nosso espírito
A Marcha das Indígenas Mulheres começou a ser sonhada em 2015. Foram anos de conversa, escuta e construção coletiva, até que em 2019, durante o Acampamento Terra Livre (ATL), esse sonho ganhou forma e direção. Foi ali, no chão do ATL, que se organizou a primeira marcha nacional das indígenas mulheres, marcada para o Dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto daquele mesmo ano.
Trecho do manifesto “Resistimos há 519 anos e continuaremos resistindo” do 15º Acampamento Terra Livre realizado entre os dias 24 e 26 de abril de 2019.
Com a presença de mais de 2.500 indígenas mulheres de 130 povos, a marcha ocupou Brasília com cantos, rezas e corpos em movimento. Naquele momento histórico, se uniu à Marcha das Margaridas, compondo um levante ancestral de mais de 100 mil mulheres da terra, da floresta e das águas, tecendo alianças entre as lutas, os saberes e as formas de existir que resistem há séculos.
Incidência
- Construímos a Primeira mobilização nacional de indígenas mulheres de todos os biomas do Brasil, que deu base para o início da construção da ANMIGA
- Ajudamos a ampliamos as frentes de enfrentamento ao projeto de morte do Governo Bolsonaro
- Entregas nosso manifesto político ao STF, nas mãos da ministra Cármen Lúcia.
- Fortalecimento da aliança entre indígenas mulheres e outros movimentos de mulheres do campo e da cidade.
Nossas Propostas de Luta
Ecoadas nosso Documento final da Marcha das Mulheres Indígenas: “Território: nosso corpo, nosso espírito”
- Demarcar é curar
Garantir a demarcação das terras indígenas. Violentar nossa Mãe Terra é violentar nossos corpos e nossas vidas. - Território pleno, sem mercúrio, sem cercas
Assegurar o direito à posse plena dos nossos territórios. Exigir do Estado o fim da mineração, do arrendamento, da cobiça do agronegócio e das invasões ilegais. O lucro não pode estar acima da vida. - Saúde com espírito, corpo e ancestralidade
Defender o atendimento diferenciado à saúde dos povos indígenas. Manter e qualificar o Subsistema de Saúde Indígena (SESAI), respeitando nossas práticas tradicionais, nossas parteiras, rezadeiras e lideranças espirituais. A saúde é integral, é também espiritual. Rejeitamos a privatização, municipalização ou estadualização do atendimento. - Nenhum direito a menos: contra o marco temporal
Exigir que o STF reconheça o direito originário às terras indígenas e rejeite, em definitivo, a tese do marco temporal. Direito indígena não é concessão: é origem. - Justiça é reconhecer a diferença
Exigir que o Poder Judiciário assegure o acesso à justiça com respeito à nossa diversidade, às nossas línguas, culturas e formas próprias de organização social. Que se cumpra o que está na Constituição e nos tratados internacionais assinados pelo Brasil. - Representatividade com presença e decisão
Promover a presença viva das indígenas mulheres nos espaços políticos — aldeia, parlamento, universidade, ministério. Não basta reconhecer nossas narrativas, é preciso reconhecer nossas narradoras. - Racismo e machismo fora dos espaços de decisão
Combater as violências e discriminações contra as indígenas mulheres que enfrentam o racismo estrutural e o patriarcado nos espaços de poder. - Alimentação sagrada e sem veneno
Defender o direito de todos os povos a uma alimentação saudável, livre de agrotóxicos e enraizada na sabedoria da Mãe Terra. - Educação com nossas línguas, histórias e escolas
Exigir educação diferenciada e de qualidade, com valorização das línguas indígenas, currículos próprios e estrutura adequada. Garantir a implementação das propostas da Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena e o fortalecimento dos territórios etnoeducacionais. - Política pública com participação e escuta
Exigir políticas públicas indigenistas que reconheçam nossa diversidade e sejam construídas com a escuta das nossas organizações. Planejar, implementar e monitorar com diálogo e protagonismo indígena. - Combater a violência com políticas específicas
Reafirmar a urgência de uma legislação própria que enfrente a violência contra as indígenas mulheres com respeito às realidades culturais de cada povo. - Empoderar é formar e informar
Garantir acesso pleno das indígenas mulheres à educação formal e à valorização dos saberes tradicionais. Fortalecer a informação, a formação e a sensibilização para a conquista dos nossos direitos. - Movimento indígena com mulheres e juventudes
Fortalecer o movimento indígena integrando as dimensões de gênero e geração. Que as vozes das jovens, das anciãs e das lideranças se entrelacem. - Fora o racismo! Basta de violência institucional!
Combater com firmeza os discursos e práticas racistas e anti-indígenas, inclusive por parte de agentes públicos. Exigir reparação, responsabilização e proteção das nossas lideranças.
E por fim, reafirmamos:
Seguiremos fortalecendo alianças com mulheres de todo o mundo, do campo, da cidade, da floresta e das águas, que também lutam pela dignidade de seus corpos e modos de vida. A nossa luta é parte da luta pela vida na Terra.
Leia manifesto completo: https://apiboficial.org/2019/08/15/documento-final-marcha-das-mulheres-indigenas-territorio-nosso-corpo-nosso-espirito/
2020
Mobilização Nacional pela Cura da Terra
7 e 8 de agosto | Mobilização online
O sagrado da existência e a cura da terra
Quando a pandemia da Covid-19 ameaçou nossas vidas e aprofundou as violências nos territórios, não nos calamos. Ocupamos outro chão: o digital. Demarcamos as telas como territórios de resistência e realizamos a maior mobilização online de indígenas mulheres já registrada, com o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”.
Como calar diante do genocídio, das mortes evitáveis, do abandono institucional? Como silenciar se a Mãe Terra chora junto conosco? Nos conectamos por todos os cantos, através de cantos, e reafirmamos: nós somos a cura da Terra.
Nossa atuação na pandemia foi coletiva, conectada com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e suas sete organizações regionais: a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB); a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME); a Articulação dos Povos Indígenas do Sul (ARPINSUL); a Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (ARPINSUDESTE); a Grande Assembleia do Povo Guarani (ATY GUASU); o Conselho Terena e a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY). Foi com o movimento indígena organizado que articulamos barreiras sanitárias, denúncias, ajudas humanitárias, campanhas e protocolos de proteção, enfrentando o descaso do Estado com nossas próprias estratégias de cuidado coletivo.
A mobilização virtual se tornou um espaço de denúncia e também de criação. Retomamos valores e memórias matriarcais, construímos redes de apoio, articulamos estratégias coletivas de enfrentamento à pandemia em níveis territorial, regional e nacional. Atuamos nas barreiras sanitárias, organizamos planos comunitários de proteção e articulamos doações e ações humanitárias. Tudo isso em meio à dor, mas também à força da ancestralidade que nos guia.
O que iniciamos em 2019 como propostas de luta, em 2020 se materializou como ação concreta, urgência coletiva e força espiritual. Reafirmamos nossos compromissos e ampliamos o movimento, agregando saberes de mulheres jovens, anciãs, mães e lideranças, porque nosso caminhar é intergeracional e nosso tempo é ancestral.
2021
2ª Marcha das Indígenas Mulheres

Brasília, 7 a 11 de setembro
Reflorestando mentes para a cura da Terra
O ano de 2021 nos convocou para o enfrentamento. Em meio à pandemia da Covid-19 e sob a política de morte imposta pelo governo Bolsonaro, fomos nós, os povos indígenas, que primeiro nos organizamos nacionalmente para ocupar Brasília. Já estávamos nas telas e redes, com intensas mobilizações online desde março. Com o nascimento da Anmiga, no Março das Indígenas Mulheres, pautamos a vacinação dos nossos povos e seguimos lado a lado com a Apib na realização da segunda edição virtual do Acampamento Terra Livre, que fortaleceu nossa articulação política durante o Abril Indígena. Mas sabíamos: não bastava ocupar as telas. Com o retorno da tese do Marco Temporal à pauta do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, impulsionada pelos interesses do agronegócio, entendemos que era hora de ocupar também as ruas.
Nossa presença foi resistência. No período da pandemia, a ameaça não era apenas o vírus da Covid-19, era o Estado tentando apagar nossos corpos e territórios. Ainda assim, nos levantamos. Pela vida, pela terra e pela memória dos nossos, fomos à luta.
Com a força da mobilização indígena, conseguimos garantir nosso direito à vacinação prioritária. Foi através da campanha #VacinaParente, da Apib e da ação ADPF 709, movida também pela Apib no Supremo Tribunal Federal, que obrigamos o governo a proteger nossas vidas. E foi com essa força que seguimos até Brasília, com nossos protocolos de saúde, com nossos cantos, com a coragem ancestral que atravessa nossos corpos-territórios.
Em junho, foi realizado o Levante pela Terra, em resposta ao avanço do PL 490, que pretendia rasgar a Constituição e legalizar o roubo de nossos territórios. Em agosto, os povos indígenas ocuparam novamente Brasília na mobilização Luta Pela Vida, em defesa do direito originário e contra a violência do marco temporal. Foi nesse pulsar coletivo que nós, indígenas mulheres, chegamos com nossas sementes, maracás e encantos.
FIZEMOS HISTÓRIA! A 2ª Marcha das Indígenas Mulheres reuniu mais de 7 mil mulheres de 185 povos, de todos os biomas do Brasil, que marcharam entre os dias 7 e 11 de setembro. Enquanto o país era tensionado por discursos de ódio e ameaças extremistas, nossa mobilização em Brasília foi cercada por caminhoneiros de extrema direita que ameaçaram invadir o acampamento. Ainda assim, seguimos firmes: “pela vida das mulheres, Nós por Nós, pelas crianças e anciãs”, seguimos em marcha, reflorestando mentes para a cura da terra e para barrar o avanço do Marco Temporal.
Não publicamos uma carta formal, mas deixamos em cada passo, em cada canto, a nossa marca. O compromisso de seguir lutando pela vida, pelo território, pela justiça climática e pelo bem viver. Foi nesse momento que se consolidou a Anmiga, nascida meses antes, como articulação viva das indígenas mulheres guerreiras da ancestralidade.
No lugar de uma nota política, deixamos ecoar o chamado do Reflorestarmentes, um sopro de sabedoria que nos lembra que, diante da destruição, é preciso semear sonhos, afetos, soma, solidariedade, ancestralidade, coletividade e história. Um manifesto vivo que brota de nossos corpos-territórios e nos ensina: em tempos de devastação, é preciso reflorestar mentes para curar a terra.
2023
Pré-Marcha

Brasília, 30 de janeiro a 01 de fevereiro
Vozes ancestrais dos 6 biomas
O ano de 2023 começou como colheita e como semente. Em janeiro, realizamos a Pré-Marcha das Indígenas Mulheres, com o tema “Vozes da Ancestralidade dos 6 Biomas”, convocando mais de 200 parentas para um encontro estratégico de articulação e escuta. Esse momento marcou o início da caminhada rumo à III Marcha das Indígenas Mulheres, mas também foi um espaço de balanço e reorientação política das ações que realizamos no ciclo anterior.
Entre maio e novembro de 2022, havíamos percorrido o país com a Caravana das Originárias, uma jornada de fortalecimento, acolhimento e mobilização nos territórios. Foram 22 encontros em 17 estados, envolvendo diretamente 952 indígenas mulheres e alcançando mais de 5 mil de forma indireta. A Caravana nos mostrou que as raízes da nossa luta estavam vivas em todos os biomas, e que era hora de florescer novamente em Brasília.
Ao mesmo tempo, consolidamos a força institucional da nossa presença com a construção da Bancada do Cocar, uma plataforma política criada por nós, indígenas mulheres da Anmiga, para ocupar os espaços de poder. Em 2022, foi registrada a maior participação de mulheres indígenas candidatas da história das eleições do Brasil, com um crescimento de 193% desde 2014.
Foi com essa base fortalecida que iniciamos 2023. A Pré-Marcha nos permitiu olhar com nitidez para os caminhos da representatividade: debatemos nossa presença nos ministérios, no Congresso Nacional, e a incidência direta no recém-criado Ministério dos Povos Indígenas.
2023
3ª Marcha das Indígenas Mulheres

Brasília, 11 a 13 de setembro
Mulheres Biomas em Defesa da Biodiversidade pelas Raízes Ancestrais
Em setembro de 2023, com os maracás em punho e os cantos firmes da ancestralidade, retornamos a Brasília para realizar a 3ª Marcha das Indígenas Mulheres, reafirmando que a luta pela Mãe Terra é a mãe de todas as lutas. Sob o tema “Mulheres Biomas em Defesa da Biodiversidade pelas Raízes Ancestrais”, reunimos indígenas mulheres de todos os biomas do Brasil, fortalecendo nossos laços de luta e de cura.
A marcha nasceu do chamado coletivo da Anmiga, que se organizaram para ecoar, mais uma vez, suas vozes em defesa da vida. Nosso objetivo foi conectar e reconectar a força ancestral das sementes que somos, trazendo para o centro do debate político a atuação das indígenas mulheres que, com seus corpos-territórios em movimento, enfrentam as violências contra a terra e apontam caminhos para a regeneração.
A marcha de 2023 se enraizou nas urgências ambientais e climáticas, em um momento em que nossos biomas seguem sendo alvo de ataques, desmatamentos e projetos de destruição. Foi nesse cenário que nos colocamos como guardiãs da biodiversidade, reafirmando que não há justiça social sem demarcação e escuta das vozes que brotam da terra.
Durante os dias de marcha, ancestralidade e incidência caminharam juntas. Realizamos plenárias, rodas de diálogo, escutas entre gerações e estratégias para fortalecer nossa presença nas decisões que impactam nossas vidas. A III Marcha também impulsionou os preparativos para a 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas, reforçando a importância de criar espaços permanentes de participação e proposição política.
Mesmo sem a publicação de uma nota política formal, deixamos marcada nossa direção em cada canto, dança e fala. Marchamos por territórios livres, por corpos inteiros, pela cura da terra e pela continuidade de um mundo onde a ancestralidade é presente e futuro.
2025
4ª Marcha e 1ª Conferência das Indígenas Mulheres
Brasília, 02 a 08 de agosto
Nosso corpo é território! Somos guardiãs do planeta pela cura da terra
Em 2025, nossos passos voltam a ecoar em Brasília, pela quarta edição da maior mobilização de indígenas mulheres do Brasil, para afirmar que, se a terra é mãe, nós somos continuidade do existir. IV Marcha das indígenas mulheres integrou um ciclo maior de mobilização que unificou outros dois grandes momentos da nossa articulação nacional: a Assembleia da ANMIGA e a 1ª Conferência Nacional das Indígenas Mulheres.
Reunimos nossa força entre os dias 04 e 08 de agosto de 2025. Fomos mais de 5 mil indígenas mulheres dos seis biomas brasileiros e também vindas de outros países caminhando juntas, levando para o centro do país as vozes que brotam das aldeias, das retomadas, das periferias e dos territórios em resistência.
Iniciamos nossa Marcha ecoando nossos maracás para fortalecer a cerimônia de abertura, organizada com nossos cantos e rituais, que abriram a discussão política com a força da espiritualidade. A mobilização ocupou Brasília com nosso corpo coletivo, como território em movimento.
Durante a Marcha, foram lançadas sementes que seguirão germinando ao longo do ano de 2025 nas diversas articulações pautadas por nós da ANMIGA. Apresentamos na programação da Marcha nosso Mapa das Organizações de Mulheres Indígenas, reunindo 241 organizações espalhadas pelo país, mostrando que nossa força está na diversidade de povos e mobilizações para dar conta das múltiplas demandas que envolvem a vida indígena e em especial de nós mulheres.
Também apontamos caminhos da nossa articulação para o ano de 2026, que é atravessado pelas eleições. Nossa Bancada do Cocar foi fortalecida com a meta de eleger 10 mulheres no Congresso Nacional para representar nossas demandas e de todo o movimento indígena.
Promovemos o nosso “Júri Ancestral”, um importante espaço para escuta das denúncias vindas dos diversos territórios contra indígenas mulheres. Nossa intenção é de provocar ação sobre essas denúncias. Precisamos de respostas e responsabilizar aqueles nossos direitos e dos nossos povos. Afirmamos também que a defesa da justiça climática deve ser encarada como parte inseparável da justiça social, territorial e de gênero.
A Luta pela Mãe Terra é a Mãe de Todas as Lutas
Usamos as ruas de Brasília como território fertil para semear nossas propostas e fazer ecoar nossas denúncias. Fortalecemos com a nossa coragem e firmeza os enfrentamentos contra as tentativas do Congresso Nacional legalizar crimes como o Marco temporal, o PL da devastação, projetos que agravam invasões dos nossos territórios e as falsas soluções verdes. Não iremos descansar enquanto nossas vidas e dos nossos povos estiverem ameaçadas.
Conectado com a nossa Marcha, fortalecemos a mobilização da ‘1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas’ que aprofundou os debates realizados durante os dias da nossa programação. A Conferência nasceu de um processo nacional de escuta realizado em territórios dos sete biomas em conjunto com o Ministério dos Povos Indígenas. Mais de 7 mil pessoas participaram desse momento histórico, entre delegadas, público geral, convidadas, observadoras, representantes do governo e imprensa. Foram elaboradas 125 propostas. Em plenária, 50 foram priorizadas como estratégicas para orientar políticas públicas voltadas às indígenas mulheres.
Os eixos estratégicos que organizaram as propostas dialogaram com as urgências dos territórios. São eles:
Direito e Gestão Territorial: demarcação e homologação das terras, revogação do marco temporal, fortalecimento da PNGATI, fundos e instrumentos de gestão com protagonismo feminino.
Emergência Climática: acesso à água potável, brigadas indígenas femininas, fundo de emergências climáticas, energias renováveis, soberania alimentar e proteção da biodiversidade.
Políticas Públicas e Violência de Gênero: criação das Casas da Mulher Indígena (CAMIs), centros de referência, plano nacional contra racismo institucional, prevenção à violência.
Saúde: fortalecimento da SESAI, casas de saúde indígena e de parteiras, combate à violência obstétrica, valorização da medicina tradicional e das parteiras.
Educação e Saberes Ancestrais: cotas e bolsas específicas, fortalecimento de línguas e currículos indígenas, concursos diferenciados para professores/as indígenas, criação da Secretaria Especial de Educação Indígena.
Nossas Mensagens
Ao final todo o nosso processo de mobilização nacional organizado ao redor da ‘IV Marcha das indígenas mulheres’, lançamos para o mundo mensagens sintetizadas em três cartas políticas que consolidaram o nosso compromisso coletivo.
A Carta dos Corpos-Territórios denunciou a degradação ambiental e reafirmou o Bem Viver como princípio de vida e governança. A Carta da Conferência sistematizou as 50 propostas prioritárias como base para um Plano Nacional de Políticas para indígenas mulheres. E também organizamos nossa mensagem internacional com a ‘A Carta das Vozes Globais pela Cura da Terra’, que carrega as pautas de indígenas mulheres de 15 países, que entre outros pontos reivindicam assentos permanentes nos espaços multilaterais de tomadas de decisão políticas globais sobre clima e direitos humanos.
A IV Marcha, conectada à 1ª Conferência, fortaleceu nossa visão enquanto ANMIGA sobre a governança indígena. Ampliou nossas articulações nos territórios, no país e no mundo. Reafirmou a força da nossa diversidade em luta e consolidou um caminho estratégico para os nossos próximos passos, entre eles destacamos a ampliação da nossa incidência política rumo à COP 30 e com a construção da Caravana das Originárias da Terra 2026, que pretendemos levar a presença da ANMIGA aos territórios de todos os biomas brasileiros.



